sexta-feira, janeiro 23

Excertos de um diário



10 de Setembro de 1986

Mãe: um pouco mais de Sol e é como se sorrisses por entre a tempestade. Quando partiste levaste todas as flores. Eu fiquei com a música e uma saudade enorme a crescer para fora do peito, de tão grande. Um beijo sempre. (Que solidão, Meu Deus!)

22 de Setembro de 1986

A saudade é uma dor física que não sei onde começa mas sei que não acaba...
O que eu não dava para te ter aqui comigo, agora a dares-me carinho...preciso tanto da tua ternura...Um beijo. Se eu pudesse ir até aí...

7 de Outubro de 1986

Minha mãe sinto que me proteges e encorajas como eu desejava que fosse físico esse teu gesto de amor...Por vezes apetece-me ir ter contigo, mas não sei se te encontraria...é que estás tão dentro de mim...Minha mãe muito querida.

20 de Outubro de 1986

Minha querida mãe: a manhã está luminosa e fria e que saudades que eu tenho das manhãs iguais em que me aquecias com o teu sorriso. Vagueio pela casa vazia, tão vazia numa solidão estrangulante de lágrimas e dor. Por vezes sento-me aqui, neste nosso recanto e fico a olhar para a porta numa espera desespero. as lágrimas recusam-se a brilhar ao Sol, preferem encher-me o peito de sal...Outras vezes (sempre) sinto-te tão perto que a minha única raiva é não poder tocar-te, ouvir-te...
O tempo vai decorrendo, mas as coisas não têm sentido, nem direcção, não têm razão de ser movimento-me apenas porque tenho que o fazer numa tentativa de libertação este tentar não pensar/lembrar/chorar-te.

Olha estou com medo do Natal. Não devias ter partido tão cedo.
Sabes, és a única pessoa que eu amo de verdade, é impossível gostar assim de mais alguém, sem reservas.

Do fundo de mim, algumas lágrimas, todas as flores do mundo e tudo de mim. Sempre.
Um beijo.


2 de Dezembro de 1986

É incrível como de repente o céu se abate sobre nós e chovem lágrimas de verdade neste tentar não lembrar que saudade Meu Deus Mãezinha sou uma menina pequena com medo do escuro e com esta dolorosa certeza que não voltas mais. É noite e o que me dói mais é essa impossibilidade de regresso este fim precoce esta mudança de mim em alguém que desconheço e lamento.
Mãezinha não sei se não te reconheço por causa das lágrimas se é por te tentar esquecer neste dia a dia sem futuro nesta dor salgada nesta fuga sem destino...


10 comentários:

Maria disse...

Um post cheio de ternura que nem consigo comentar.
Só me apetece abraçar-te...

Betty Branco Martins disse...

._________querida AnaMar





há momentos que





.as palavras não têm sentido




nem




sequer

.existem





.é o que me está



a acontecer_______________________________________...









um grande e forte abrAço

g. disse...

anamar um dia deixei estas paavras do MEC a uma amiga, hoje deixo-as a ti não paa que esqueças a tua Mãe mas para teres um pouco de conforto no coração.

para mim "as explicações de português" do MEC são as minhas palavras de conforto para atenuar as saudades.
beijo

Graça Pires disse...

Excertos para uma mãe ausente. Belíssimo!
Beijos.

Princesa disse...

Nunca te esqueças que ..."no cimo de cada montanha, a paz existe..."

Olhos rasos de emoção!

Beijo e bom fim-de-semana

tufa tau disse...

mãe, minha tão querida mãe...

mfc disse...

Há saudades que sempre crescem...
Um beijo grande... muito grande.

Eduardo Aleixo disse...

Tão íntimo é o teu texto, mas tão terno, tão terno, que eu, se me permites, dou-te, apatece-me dar-te, muitos beijinhos de ternura.
Eduardo Aleixo

Daniel Silva (Sair das Palavras) disse...

A minha Mãe foi-se embora ha 3 anos. Partiu, percebes? Mas apenas comemoro o seu aniversário, ja no dia 5 de Fevereiro.

Li e gostei do que li, apesar da dor.

Beijinho de sentida saudade, cada um pela sua querida e adorável Mãe.

Não há palavras...

g. disse...

acho que me esqueci do link que te queria deixar

aqui fica:
http://cantodomelro.blogspot.com/2004/03/como-se-esquece-uma-me.html

beijos