sexta-feira, janeiro 30

Sabias?...

Fotografia de José Maria Pimentel




Por vezes as letras não formam as palavras que queremos ou melhor, que devemos, pois é clássico o eterno conflito entre o Querer e Dever.



Por vezes a atracção reside nas diferenças: desejo / romance; vontade / dúvida; breve gostar / paixão; aventura / descoberta; ou simplesmente nos complementos (in)directos deste jogo de sedução em que nos inventamos...Vá-se lá saber porquê...Talvez porque ando sem rumo, porque medito demasiado, porque tento esquecer um desgosto, porque me perco e encontro nesse olhar cheio de promessas que jamais cumprirás, porque o teu colo tem sabor a paz, porque estou ávida de ternura, porque...



...Mas tento não cair na armadilha da qual sei de cor, o sabor triste de despedidas adiadas...



Até porque não sei viver de outra maneira: apaixonadamente um dia de cada vez, intensamente como se fosse o último, sem sustos, nem medos, a uma velocidade alucinante...



Por isso e por tantas outras coisas que, de se saberem se banalizam se as escrever, tento fugir neste paradoxo de só vou porque estou apaixonada e não quero apaixonar-me, assim não vou...



Percebes agora porque parece o meu discurso incoerente? Porque digo uma coisa com a boca, dizendo outra com o olhar? Porque não pareço convincente?



Não tem nada a ver com moral, pecado, sentimento de culpa...É uma defesa, a melhor que consigo para que não nos magoemos...



Claro que ainda sinto a magia de momentos especiais...claro que me atrais, claro que me apeteces. Mas talvez seja tempo de fazer o tal exercício de disciplina que sempre desprezei, eu que há pouco tempo descobri / aprendi que devemos seguir o coração...



Não sei do que preciso...



Talvez de um tempo de solidão para que me encontre,



talvez de um amigo que permaneça sem esperar nada em troca,



talvez do teu olhar quente em dias cinzentos de nevoeiro...



...Se soubesses as saudades que sinto, sem teres partido, se soubesses a falta que me fazes, mesmo quando estás...



Um beijo e muito de mim.



sexta-feira, janeiro 23

Excertos de um diário



10 de Setembro de 1986

Mãe: um pouco mais de Sol e é como se sorrisses por entre a tempestade. Quando partiste levaste todas as flores. Eu fiquei com a música e uma saudade enorme a crescer para fora do peito, de tão grande. Um beijo sempre. (Que solidão, Meu Deus!)

22 de Setembro de 1986

A saudade é uma dor física que não sei onde começa mas sei que não acaba...
O que eu não dava para te ter aqui comigo, agora a dares-me carinho...preciso tanto da tua ternura...Um beijo. Se eu pudesse ir até aí...

7 de Outubro de 1986

Minha mãe sinto que me proteges e encorajas como eu desejava que fosse físico esse teu gesto de amor...Por vezes apetece-me ir ter contigo, mas não sei se te encontraria...é que estás tão dentro de mim...Minha mãe muito querida.

20 de Outubro de 1986

Minha querida mãe: a manhã está luminosa e fria e que saudades que eu tenho das manhãs iguais em que me aquecias com o teu sorriso. Vagueio pela casa vazia, tão vazia numa solidão estrangulante de lágrimas e dor. Por vezes sento-me aqui, neste nosso recanto e fico a olhar para a porta numa espera desespero. as lágrimas recusam-se a brilhar ao Sol, preferem encher-me o peito de sal...Outras vezes (sempre) sinto-te tão perto que a minha única raiva é não poder tocar-te, ouvir-te...
O tempo vai decorrendo, mas as coisas não têm sentido, nem direcção, não têm razão de ser movimento-me apenas porque tenho que o fazer numa tentativa de libertação este tentar não pensar/lembrar/chorar-te.

Olha estou com medo do Natal. Não devias ter partido tão cedo.
Sabes, és a única pessoa que eu amo de verdade, é impossível gostar assim de mais alguém, sem reservas.

Do fundo de mim, algumas lágrimas, todas as flores do mundo e tudo de mim. Sempre.
Um beijo.


2 de Dezembro de 1986

É incrível como de repente o céu se abate sobre nós e chovem lágrimas de verdade neste tentar não lembrar que saudade Meu Deus Mãezinha sou uma menina pequena com medo do escuro e com esta dolorosa certeza que não voltas mais. É noite e o que me dói mais é essa impossibilidade de regresso este fim precoce esta mudança de mim em alguém que desconheço e lamento.
Mãezinha não sei se não te reconheço por causa das lágrimas se é por te tentar esquecer neste dia a dia sem futuro nesta dor salgada nesta fuga sem destino...


quarta-feira, janeiro 21

Passado - mais - que - perfeito




Acordo sem ti
e de repente penso que tudo foi um sonho.

Nunca existimos

ou existimos ainda e para sempre.

Depois o Sol desperta-me,

tento interiorizar
a frase de Gabriel Garcia Marquez:
"Não chores porque acabou. Sorri porque aconteceu"
e as lágrimas descem
rápidas
e quentes
numa tentativa

de desatar
o nó da garganta.

O passado teima em aparecer
em fantasmas de nevoeiro
dias cinzentos de chuva miudinha

o sufoco da traição da memória...
...é outro dia,
outro mês,
outro ano

de recomeço

de esquecimento,
de...
...tentar não lembrar...

Como estás tu?