segunda-feira, fevereiro 23

Tempestade

Fotografia de José Maria Pimentel


Afastas-me com a pressa
que me faz correr
sem querer,
beijos perdidos
pela impaciência
de
quem não sabe esperar.


T(r)oco todos os segredos
ao de leve
porque te sei de cor
e
apesar de tonta pela luz
da chama que teima em arder
assim
a dor no meu peito
em ferida
pela partida anunciada
sem
regresso,
as memórias do que não teremos
irrompem em sal
líquido
quente,
arrefecido
pelas palavras
que não quero,
na certeza que tens
em decidir
numa exigência de mim
eu que me dou
sem que peças,
eu
que sinto
o que não deve ser sentido,
por isso
não tem nome
este amor
impossível
proibido,
porque as promessas
não se cumprem.


Estou cansada de viver
porque sem ti
a vida
embrulha-me
no ciclone,
transforma-me em gelo
as lágrimas que recuso
o Sol não aquece
e
eu perco-me de mim

(e não pretendo regressar).

Em tempestades de afagos
o meu cabelo penteado
está revolto,
irrequieto
pela falta dos teus dedos
que tentam o esquecimento.

Ergo o olhar
o céu azul é cinzento
as minhas mãos
já não me pertencem.

O meu corpo soltou-se de mim.

Eu não sou eu.

Deambulo pela floresta que é a minha cidade.

E existo apenas com a solidão que me deixaste.

quarta-feira, fevereiro 18

"Bloga-me mucho"

Halberg Photographers


Detesto correr
e
só me calo
se o beijo for eterno.

Não quero tropeçar
em memórias circundantes
muito menos
orientar marionetas,
fotografar casamentos
primeiros,
segundos,
terceiros
a chegar
no jogo da "apanhada".

E porque aguardo
sem saber esperar,
os ri(s)os
deslizam
em montanhas de gargalhadas
abertas
as mãos que se dão,
se t(r)ocam
ou
se erguem,
num amparo de lágrimas
que,
cada vez que penso que esgotei
transbordam
num
diluvio de desilusões
com que
destróis os sonhos
que insisto em perseguir.

Mas sou feliz à mesma!

terça-feira, fevereiro 10

Dor antiga


O teu olhar

faz-me chuva no corpo
e nas mãos
a guerra das palavras.

O medo
vem com a madrugada
e o silêncio
instala-se no meu peito
assim a dor
e uma solidão sem nome.

Grito sem voz
o teu nome
pelos cantos deste hospital
e acredita
o que eu mais queria
era sofrer TUDO por ti.





O que dói é o teu sorriso calado
o teu olhar compreensivo
o teu corpo nos meus braços.

O que dói é esta casa vazia
os teus brinquedos quietos
a saudade que inventaste.

Também dói os gestos que não sei
e o nó na garganta.
Mas o que dói mais é este estranho sentir
esse teu choro calado
este saber que te vou perder.

O que dói é saber.

(Ainda bem que me enganei)

domingo, fevereiro 8

Respirar


Estou à tua espera!

A cidade continua cinzenta,
o Sol, vem e vai, tal como alguns amigos...
As ruas estão cheias de lixo
e
da terra
solta-se um odor a chuva

água que vem de mim

não há lágrimas
mas
um descontentamento
que leva o meu nome até ao rio

uma insatisfação
que cresce
com as árvores do meu bosque secreto

e nem sei o que sinto

uns suores frios,
as mãos trémulas,
o olhar turvo,
a vontade a morrer,
o sorriso a esvair-se em dor

nem eu sei porquê.

O Sol voltou.
Recuso-me a aceitar o azul do céu.

O sonho persiste.

Borboletas esvoaçam
no meu peito
aprisionadas
pelo silêncio.

Sinto em mim
o medo,
a noite,
a cidade de cimento
e música,
sempre a música
que me põe no olhar
imagens poeirentas
e o pensamento
distante.

quarta-feira, fevereiro 4

Sozinha

Carlos Pinto Coelho


Penso-te num mar tranquilo, algumas ondas de sobressalto em ruídos que perturbam o momento.

O sol aquece a tua memória, desordena-me os pensamentos... Há tanto tempo que não te escrevo...

A tua presença mora na tentativa do esquecimento, no vislumbre de uma nova perspectiva em que o nós é possível, no sonho adiado.

Meu amor impossível, provável, possível às vezes, meu sentir inventado, como dizer-te que o nós só sobrevive nesta marginalidade construída para que permaneçamos, neste jogo de esconde-esconde, neste desejo proibido?

Como dizer-te que Setembro há-de vir, acordar-nos para uma realidade que tentamos camuflar, para o dia a dia das nossas obrigações, num enterrar fundo dos nossos sentires...

Como dizer-te que já não te espero, porque teimo em acreditar que jamais virás, eu que sei que já te deste todo...

Um amor tranquilo, maduro...sim e onde nos levará esse sentir ? Nesta altura das nossas vidas, que projectos podemos iniciar juntos? Não, não duvido do que sentes, estou apenas a ser pragmática.

Agora sou eu que estou um pouco baralhada... Preciso de me afastar, de me encontrar, sozinha.