terça-feira, maio 20

Fogo



Céu,
pinheiros ao vento,
nuvens de fumo.

Há um fogo por apagar no meu peito.

O Sol cai direito ao corpo
quente,
(da espera)
as mãos sem direcção,
vazias dos momentos
adiados,
pensados,
os gestos.

A musica trai a memória num despertar
de sentidos
sem nome,
proibidos.

Cai a tarde,
a luz impera
na sombra
impura
até doer.

sábado, maio 17

Mensagem recebida


...

"Sei que este amor é excessivo e deveria poder controlá-lo (ninguém esgota ninguém) que posso eu contra o facto de tu viveres sempre o presente e estares bem onde estás, com quem estás...

...
"Simplesmente sofro. Um dia acordarei talvez de olhos secos e frios e dir-me-ei: consigo viver por mim e sorrir sem ti e olhar a vida como um jardim ligeiro, onde há plantas e flores voltadas para mim. Conseguirei?"

...
"Agora dirás talvez a outro as palavras que nunca me disseste."

...
"E tu porque não vens ter comigo, mesmo que seja em sonho, agora que as bungavílias começam a acordar em banho de roxo e ouro pálido e do céu baixo se solta um vento quase caricioso, que vai deixando dedadas mornas por aí."

...
"Sei que numa relação desigual como a nossa...é preciso aceitar e fruir tudo o que me dás e nada exigir. Mas dentro de mim, embora nunca o exprima, exijo tudo e muito mais."

...
"Acabaria provavelmente por te perder, mesmo que não tivesses colocado entre nós este espaço tão grande, tão cruel, de silêncio,..."

...
"Tenho medo dos sonhos. até a minha escrita é confusa, como se fora a dor de um outro que me faz escrever."

...
"Dias de lenta tristeza, entre o desespero e a conformação."

...
"Fico... esmoendo lembranças, a querer-me desprender deste peso contínuo, desta mágoa, desta ideia obsessiva.
Deste amor."

...

em "Margem da Ausência", de Urbano Tavares Rodrigues


domingo, maio 11

Momento



O mar no olhar
na boca o sal
a doer,
no sol,

uma lágrima
e um cristal.

a floresta perde-se no sonho...
...e o rio transbordou de silêncio.

O grito da ave
(blues numa noite de Verão)
amanhã o céu em festa
azul,
hoje só uma canção.

Recuar,
chuva gélida
de solidão.

O momento é um instante
a musica
c
a
i
direita ao peito.

em uníssono com as maçãs
as violetas partiram em busca da chuva.

As cores misturam-se
e o sono vence.

(Morre-se com o Sol na mão?..)



domingo, maio 4

Minha querida mãe




Acordei sem o teu beijo. É assim há, faz em Junho, 22 anos.

Despertei com as palavras a sufocarem-me o olhar. Como acontece de cada vez que te lembro com mais intensidade. Porque sabes bem, que estás sempre comigo, sinto-te a presença e a protecção constante. E a maior dor é a falta do teu abraço, do teu contacto, do teu aroma a lilases silvestres (chegaste a saber que se tornaram as minhas flores preferidas?). A falta do teu olhar doce e um pouco triste (a tua neta herdou esse olhar). Mas o que mais falta me faz é o teu sorriso, esse sorriso que te vinha da alma, o sorriso que tinhas até quando te apetecia chorar. Esse sorriso de um amor imensurável e incondicional. Essa capacidade de amar que te tornou numa mulher admirável e inesquecível por todos os que te conheciam. Não sei de ninguém que não te adorasse. Até o pai, homem rígido e difícil na forma como manifesta as emoções, ainda te lembra como A Mulher, única e insubstituível, apesar das tentativas, porque não sabe viver sozinho.
E és única.
Fui ao baú onde guardo alguns dos teus pertences: as cartas que me escrevias, quando eu ia de férias para a tua aldeia, os postais, os recados que me deixavas de manhã, quando ias trabalhar, os postais que te escrevia no Dia da Mãe, o teu relógio, as tuas jóias, entre tantas outras coisas que intensificam a tua presença, em mim, comigo.
No mesmo baú, guardo os cadernos onde me tentei libertar em palavras, todas as tentativas de poemas que te escrevi.
Porque gostavas de me ler, continuo a escrever...

E hoje, mais um dia em que as lágrimas deslizam rápidas e quentes. Não pela tua memória, mas por não estares aqui. Por tudo o que não fizeste. Pelo teu sofrimento tão imerecido. Pela vontade inexpugnável que tinhas, de viver. Pela tua partida precoce, embora anunciada. Pela dor e raiva com que fiquei, por me teres deixado assim...
Pois nem imaginas o que levaste de mim, quando partiste.

Daqui a pouco, num tributo à importância que davas aos simbolismos, às tradições, vou-te visitar ao local, onde repousam os teus ossos, o que resta de ti em matéria. E, tentar encontrar a tua flor preferida, a açucena branca.Tem sido difícil, mas eu vou tentando.

Sempre que a minha (má) gestão do tempo me permitir, voltarei a este espaço, que vou construindo, de memórias.

Apenas porque há memórias que são mais do que isso. E porque sabes que, para mim, recordar não é viver (lembras-te das nossas discussões? De como ficavas assustada com os meus argumentos e a minha intempestiva rebeldia?). Pois recordar é apenas, existir. As memórias são importantes, fundamentais até, no nosso percurso de vida. Desde que não nos prendam ao passado, e nos deixem continuar a viagem das descobertas. De nós e dos outros.

Um beijo e até já. Vou à procura da tua flor. E esconder as lágrimas da minha família, que me conhece sempre alegre.


Nota: A tua neta, num gesto de puro amor por alguém que só conhece de fotografias e de conversas, fez uma tatuagem com a tua flor preferida.

quinta-feira, maio 1

Hoje é o primeiro dia...



Hoje é o primeiro dia do mês de Maio, o primeiro dia em que escrevo para um écran pensamentos a partilhar com quem passar por aqui.
Não quer isto dizer que abandono a escrita nos meus cadernos de capas duras, semi-rígidas, ou mesmo moles, capas coloridas ou negras, cadernos de vários tamanhos, alguns com folhas amarelecidas pelo tempo, pois albergam os meus pensamentos há já muitos anos. Assim como pétalas de flores secas e perfumadas.
E segredos. E sonhos.
Neste primeiro dia de um diário sem data, olho a vida com olhos de uma passageira em viagem ...
E avanço para a noite sem medo do dia seguinte.
Porque tal como este blogue, a vida está em constante construção.




A Primavera instalou-se em passos de dança
o prelúdio de um Verão
quente
de lágrimas de saudade.

É impressionante as palavras que não temos
quando as queremos
sensações soltas,
olhares furtivos,
emoções loucas
ou
simplesmente um virar de página.
Aberta
a imaginação,
o adeus adiado,
o momento dorido
os espelhos que não se ousaram quebrar
gestos suspensos,
musicas proibidas...

...passa o tempo a doer devagar.

Fecho os olhos para que as lágrimas não me traiam.
Tranco-me por dentro numa
tentativa de Verão
escaldante
o morno das manhãs
cálidos suspiros,
desejos secretos.

Quantas palavras desordenadas cabem no meu peito?
Quantas lágrimas escondidas em mãos alheias...

...pedaços de céu por recortar
numa partida anunciada.

Noites mágicas num adeus adiado.

Que saudades dos tempos que se adivinhavam
pueris
e
soltos
assim os anos que passam ou como a frase do poeta
-entre nós nunca haverá morte,
apenas noite-

Como se fosse fácil
permanecer
quando alguém parte,
num virar de página
irreversível
e estonteante.

Fica a música,
o perfume,
algumas flores secas
e a memória
de um tempo
em que as cerejas eram o vermelho da boca
e as palavras,
poesia.

E os rios que não param de correr,
assim eu
em tons de azul, lilás,
arco-íris de todas as cores
fortes,
numa explosão de sentidos...

...a saudade anuncia-se
dolorosa,
mas terna.

Recomeçar é a palavra.
Até um dia.
Até sempre.