terça-feira, dezembro 8

Reencontro


Chegaste num mês de um ano qualquer
trazias nas palavras
os gestos por inventar
que cativam os sentires
quando sussurradas
mesmo que a distância seja longa
e
os poemas conhecidos.

Tanto tempo (meses, anos)
e eis que regressas,
como se nunca tivesses partido.

Sei-te em cada letra que me lês,
em cada suspiro de mim
em cada anseio de nós
numa vertigem
em que o tempo é o lugar que escolhermos
sem medo.

Voz rouca,
numa pronuncia do Norte
em
olhares verdes
mar
ou céu,
dia por inventar
noite por acontecer.

Dizes
que não podemos viver
só de palavras.

Então,
parto sem bagagem,
sem destino,
em que o caminho
ainda és tu.

segunda-feira, novembro 9

Janela (in)discreta



Ruas entoadas

em calçadas de

paralelepípedos

hologramas de visões

ensaiadas,

previstas

em permanentes

paralogismos,

numa mensagem

em

hipótese,

escadas

até ao páramo.




Noites coloridas

em sons

e tons

de jazz ao vivo.




Co(r)pos t(r)ocados

de cristal

em carne viva

ardente

puro mel,

semente.




Imprudente a imaginação.


Pudico o sorriso.




Improviso um beijo no teu olhar de partenomancia.




A exina nos dedos.

E as borboletas em fuga.



Sacramental este amor sem silogismo.


sábado, novembro 7

Des(Focagem) ou Noites de Casablanca

(Sim, é a Torre dos Clérigos)

A suave brisa
quente
a lembrar
o teu beijo
ardente
abafado
o grito
de prazer
de corpos
na areia
moldados
ao luar
do Sol.
Oriente mistério viagem
império
de sentidos
cores
sabores
sedas
em mim
jóias palácios
cavalos
árabes
príncipes
noites
mágicas
sem fim.
Deserto em tempestades
de areia
e emoções
tempo
para
rir
aprender a amar
regressar
sem
alma
lago gélido
amanhecer
(s)em
ti.

terça-feira, novembro 3

Eclipse



É amar-te assim

de-ses-pe-ra-da-men-te

na musicalidade da tua voz

em jeito de canção

docemente

floresta encantada

mágica

a flauta de Pan,

amar-te sem senão

em despudor

e razão,

amar-te

definitivamente

sem receio

de perdão,

amar-te

no feitiço da Lua

raio de Sol

que

c

a

i

direito ao meu coração.


Amar-te

com palavras novas

sons em aromas

por inventar

a minha mão

no teu peito

suave respirar,


amar-te

como se o (meu) mundo fosse acabar


gélido o túmulo que me está reservado


amar-te sem que saibas

mesmo sabendo

e não queiras,

amar-te

devagar

numa despedida

breve

eu que te aguardarei

sem saber esperar.


Para sempre este (a)mar.


(E a praia secreta, onde escondo o meu pranto de sal).

quinta-feira, outubro 29

Espera por mim



A semana corre(u) lenta

angustiante

pelo receio de (não) te ver.


Sei-te perdido nesse hospital

dores insuportáveis

de quem sabe que a vida terminou.


Recuso-me a acreditar.


Por isso

espera por mim

amanhã

vou tentar dar-te o jantar.

E falarei pelos dois

se o cansaço

nem te deixar olhar.


Rirei das piadas que inventarei

seguarar-te-ei na mão

para que sintas que a vida não se esvai assim...



Lembrar-te-ei dos teus filhos a brincar

do colo que lhes dou

e que achas que me ficam bem

das risadas soltas

que te fatigam o andar

curvado

sobre ti

numa espera devagar

homem sem esperança

que tento recuperar.


Espera por mim

que tenho tanto

para te contar.

Como se pode perder alguém, que ainda não se ganhou?

Amanhã enxugarei todas as lágrimas que (ainda) não chorei.

domingo, outubro 25

Bom fim de semana


terça-feira, outubro 20

Norte



Saboreias(-me)


bagas brancas

do Sol raiado

camarinha


amor jamais renegado

apenas olvidado

pela insensatez

surdez e teimosia

a amizade é a mais pura forma de amar

casa vazia


pinhal em corte raso

amarillis


alfazema


rosmaninho


vinho


Porto Reserva


vintage


sei o (meu) Norte


amor dividido pela multiplicação da paixão


a sorte


de permanecer no coração


de quem me ama sem explicação


amor aprendido


sem ilusão


o Sul na palma da mão


de dedos de menina


que crescem para os cabelos ondulados


da infância perdida


dividida


e o Sul cada vez mais distante


decidido ou hesitante


construindo imagens novas


provas de peliculas antigas


retoques mal-me-quer


num gostar a mosto


(A)gosto


de qualquer mulher.


quinta-feira, agosto 20

Cisne selvagem

Óleo sobre tela de Elisabete Maria Sombreireiro Palma



A (minha) morte
será a libertação
de dor
que causo
inexorável
e
imprudente
quando tento uma felicidade
mesmo breve mesmo pendente
em flores silvestres
aromas campestres
mar de meu desejo
infinito azul
tudo o que começa tem um fim
assim um amor que era eterno
na efemeridade da mudança.


Musica
sentidos
dança
aroma jasmim
o apelo do deserto
chá de menta
perfume táctil
plural
cântico final.

(O princípio está no fim).

domingo, julho 19

Passagem

Fotografia de Marta Borges




Parada.

No cimo da montanha
um pé a seguir ao outro
o abismo
atracção
voar numa libertação irreversível
como as lágrimas entornadas em dias por viver
fuga
sem regresso
sem sentido
sem reverso
a moeda de troca sem valor.

Pingo de chuva
água de mel
ardor
ferida aberta
a descida exige mais esforço
o declive perigoso
o passo mais difícil é o ultimo
(e não o primeiro)
transpor o penedo invisível
passar o rio seco
sem ponte
sem medo
e eu descalça e a terra a entrar em mim...

Misturo-me com as raízes e fico mais um pouco.

quinta-feira, julho 16

Sermão

http://www.michelealassio.com



"Pinta-se o amor sempre menino...Usar da razão e amar são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser ? Uma vontade com afectos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor quando conquista uma alma. Porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febriciante que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar se for firme. Mas não deixará de tresvariar se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração que não houvesse fraqueza no juízo. ... Quem ama porque conhece- é amante. Quem ama porque ignora- é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito - assim no amor diminui o merecimento. Quem ignorando ofendeu - em rigor não é delinquente. Quem ignorando amou - em rigor não é amante."

Padre António Vieira

quarta-feira, junho 24

A minha morte



Não te demores em mim.

O dia fecha a noite com uma chave de prata.

Veludo azul
é a minha pele de seda
quando o teu apetite devora a tarde
e os perfumes se colam
aos lábios rubros de desejo
em galopes alados
de toques de asas no meu peito.

Não te demores em mim.

Que a vida se esvai aos poucos
e o ar que me sustenta
pesa nos ombros.

Não te demores em mim
passa o tempo a doer devagar.

Se partires agora
nem darás conta
quando eu já não ficar.

Apenas um sopro de fim.

E a paz regressa
numa alegria de mim.

sábado, maio 23

Dança comigo






Aos poucos

d

e

v

a

g

a

r

i

n

h

o

regressa o Eu que preciso
explosivo

vibrante

apaixonado

vai-se insinuando nos cabelos ao vento
no Sol da Primavera dos sentidos
e
apetece-me
um vestido de Verão,
decotado,
sem costas,
saia rodada comprida
e
uma canção.

(Mesmo sabendo que não terei a tua mão
para me conduzir na dança...)

Mas apetece-me...

...VIVER!

quarta-feira, maio 20

Moscatel


Verde musgo
doce
melado

aliança
ouro sobre azul

olhos de espanto

deixar que o pranto te conduza a mim

oca
vazia

enjoo matinal pré-natal
em
despedidas de Verão

o toque suave da mão
(n)um beijo roubado
dentro do coração.

Sofreguidão de mim
sem nunca me teres tido
por inteiro
solidão
(desde Fevereiro?)
cai a tarde
nublada,
mesclada
no meu corpo nu.

quarta-feira, maio 6

Alegria breve

Fotografia de Luís Ferreira

Hoje as palavras não bastam para prender o sorriso. Nem as que invento , num movimento de virar de página. Esquecer. Deixar de lutar, enfrentar a inexpugnável dor de deixar de perseguir um sonho. A Lua Cheia incita o caminhar, sem olhar para trás. Acaricio o ventre numa despedida (o)usada. Evito as lágrimas secas. Agarro o azul do que não sei e com ele junto ao coração, parto em direcção ao vazio. Está uma noite linda para morrer. Em silêncio, para que ninguém perceba. Vou então...

domingo, maio 3

Mãe Para Sempre

8 de Março

Mãe continua comigo

o cansaço toca-me os ombros
pesa-me o corpo
fecham-se as pálpebras
numa tentativa de paz.

Olha,
refresca-me os cabelos
com um só toque de mão
minha mãe
vou estender a roupa
podes continuar sentada
neste leito
onde todas as noites
te espero sem dormir.


9 Março

As lágrimas vieram assim
sem que eu fechasse os olhos
deslizam rápidas e quentes
em uníssono
com os sinos da tua aldeia.

É uma manhã
estranha
de cinzento azul evento
quanta
chuva nos meus olhos

minha melhor amiga
nem imaginas o que levaste de mim
quando partiste...

12 Março

Liberto-me assim
sem pensar no que escrevo
palavras letras juntas
como tu e eu éramos!

Agora,
sinto-me perdida
sem ti,
nada faz sentido.

Então, uma necessidade brutal
de te apertar contra o peito
suave acordar ao som da tua voz
quando sorrias para mim
quando para mim vivias.

As lágrimas também são nó na garganta
e no corpo
e muito principalmente
DOR
na vontade de partir em busca de ti.


A água cai
pau-sa-da-men-te
numa humidade opressiva
de cinzento quente.

É uma manhã estranha
esta
em que tento desesperadamente
não te lembrar.

Mas como posso esquecer-te, se fazes parte de mim?


(Mãe, eu não te encontro por estares tão dentro de mim?!...)


Sinto-te a pele...

...E o meu corpo febril de espera
de ti
e do verão.
Há cerejas murchas
de tanta água salgada
nos meus olhos
sem cor.

A tua imagem
recorta-se incerta
na minha memória
(tão certa que eu estou de ti
e da tua partida se regresso).

Murcham as flores;
que Primavera
que dor
que saudades de
ti, mãe.



Penso-te em cascatas de lume.
É um tempo estranho este
de dor e paixão.

Lábios rubros
sabor a maçãs
verdes
os anos
e as árvores
numa tentativa de Primavera precoce.



Em passos de dança
rolam as lágrimas
por entre nós
até ti
eu
sinto-me
tão só.
Volta, por favor.


20 De Março

O fogo das lágrimas
nos espelhos que não ousámos estilhaçar.

Lembro-te folha a folha
leve agitar de árvores
em verde
de Primavera
e
perfume.

O canto do cisne na memória do lago maldito.

Era uma vez
um jardim sem flores
que eu roubo
e
distribuo
com o olhar
sempre que te penso.

É mais uma manhã de azul e gelo.

Tanta coisa por dizer.

Misturo as palavras com as lágrimas
e já nem sei o que te diga.

Amo-te muito.
É assim
para sempre.

sábado, abril 25

Onde estava eu neste dia...há 35 anos atrás















Há 35 anos atrás, estava na escola Preparatória Marquesa de Alorna, que foi defendida pelos soldados de armas em punho, estrategicamente posicionados num descampado à volta da escola, numa encosta voltada para a Praça de Espanha.


Nunca mais esqueci os sorrisos com que me brindaram e dos agradecimentos gentis e ternos, porque eu lhes fui levar o meu lanche, depois de autorizada pela Senhora Directora e acompanhada por uma professora. Ainda hoje sinto orgulho e me emociono, com um gesto tão infantil, mas tão significativo para mim.

Também recordo, que foi a segunda vez que vi o meu pai chorar ( a primeira foi quando lhe faleceu a mãe).

Hoje tenho lágrimas de alegria pelo Dia, mas de nostalgia, por o meu pai já não comemorar este dia, quando o fez todos os dias da sua vida, mesmo antes de o poder fazer em Liberdade.

Tentarei não te desiludir, pai, porque a tua luta é também a minha.

Feliz Dia para todos, independentemente das ideologias políticas de cada um.

Nota: E como sou tosca (como diz um amigo meu) não consegui colocar o vídeo do Paulo de Carvalho com A canção que eu adoro (E depois do Adeus, no Festival da Canção)... "Tosquices" (acho que se clicarem no título, pelo menos se ouve... :-))

segunda-feira, fevereiro 23

Tempestade

Fotografia de José Maria Pimentel


Afastas-me com a pressa
que me faz correr
sem querer,
beijos perdidos
pela impaciência
de
quem não sabe esperar.


T(r)oco todos os segredos
ao de leve
porque te sei de cor
e
apesar de tonta pela luz
da chama que teima em arder
assim
a dor no meu peito
em ferida
pela partida anunciada
sem
regresso,
as memórias do que não teremos
irrompem em sal
líquido
quente,
arrefecido
pelas palavras
que não quero,
na certeza que tens
em decidir
numa exigência de mim
eu que me dou
sem que peças,
eu
que sinto
o que não deve ser sentido,
por isso
não tem nome
este amor
impossível
proibido,
porque as promessas
não se cumprem.


Estou cansada de viver
porque sem ti
a vida
embrulha-me
no ciclone,
transforma-me em gelo
as lágrimas que recuso
o Sol não aquece
e
eu perco-me de mim

(e não pretendo regressar).

Em tempestades de afagos
o meu cabelo penteado
está revolto,
irrequieto
pela falta dos teus dedos
que tentam o esquecimento.

Ergo o olhar
o céu azul é cinzento
as minhas mãos
já não me pertencem.

O meu corpo soltou-se de mim.

Eu não sou eu.

Deambulo pela floresta que é a minha cidade.

E existo apenas com a solidão que me deixaste.

quarta-feira, fevereiro 18

"Bloga-me mucho"

Halberg Photographers


Detesto correr
e
só me calo
se o beijo for eterno.

Não quero tropeçar
em memórias circundantes
muito menos
orientar marionetas,
fotografar casamentos
primeiros,
segundos,
terceiros
a chegar
no jogo da "apanhada".

E porque aguardo
sem saber esperar,
os ri(s)os
deslizam
em montanhas de gargalhadas
abertas
as mãos que se dão,
se t(r)ocam
ou
se erguem,
num amparo de lágrimas
que,
cada vez que penso que esgotei
transbordam
num
diluvio de desilusões
com que
destróis os sonhos
que insisto em perseguir.

Mas sou feliz à mesma!

terça-feira, fevereiro 10

Dor antiga


O teu olhar

faz-me chuva no corpo
e nas mãos
a guerra das palavras.

O medo
vem com a madrugada
e o silêncio
instala-se no meu peito
assim a dor
e uma solidão sem nome.

Grito sem voz
o teu nome
pelos cantos deste hospital
e acredita
o que eu mais queria
era sofrer TUDO por ti.





O que dói é o teu sorriso calado
o teu olhar compreensivo
o teu corpo nos meus braços.

O que dói é esta casa vazia
os teus brinquedos quietos
a saudade que inventaste.

Também dói os gestos que não sei
e o nó na garganta.
Mas o que dói mais é este estranho sentir
esse teu choro calado
este saber que te vou perder.

O que dói é saber.

(Ainda bem que me enganei)

domingo, fevereiro 8

Respirar


Estou à tua espera!

A cidade continua cinzenta,
o Sol, vem e vai, tal como alguns amigos...
As ruas estão cheias de lixo
e
da terra
solta-se um odor a chuva

água que vem de mim

não há lágrimas
mas
um descontentamento
que leva o meu nome até ao rio

uma insatisfação
que cresce
com as árvores do meu bosque secreto

e nem sei o que sinto

uns suores frios,
as mãos trémulas,
o olhar turvo,
a vontade a morrer,
o sorriso a esvair-se em dor

nem eu sei porquê.

O Sol voltou.
Recuso-me a aceitar o azul do céu.

O sonho persiste.

Borboletas esvoaçam
no meu peito
aprisionadas
pelo silêncio.

Sinto em mim
o medo,
a noite,
a cidade de cimento
e música,
sempre a música
que me põe no olhar
imagens poeirentas
e o pensamento
distante.

quarta-feira, fevereiro 4

Sozinha

Carlos Pinto Coelho


Penso-te num mar tranquilo, algumas ondas de sobressalto em ruídos que perturbam o momento.

O sol aquece a tua memória, desordena-me os pensamentos... Há tanto tempo que não te escrevo...

A tua presença mora na tentativa do esquecimento, no vislumbre de uma nova perspectiva em que o nós é possível, no sonho adiado.

Meu amor impossível, provável, possível às vezes, meu sentir inventado, como dizer-te que o nós só sobrevive nesta marginalidade construída para que permaneçamos, neste jogo de esconde-esconde, neste desejo proibido?

Como dizer-te que Setembro há-de vir, acordar-nos para uma realidade que tentamos camuflar, para o dia a dia das nossas obrigações, num enterrar fundo dos nossos sentires...

Como dizer-te que já não te espero, porque teimo em acreditar que jamais virás, eu que sei que já te deste todo...

Um amor tranquilo, maduro...sim e onde nos levará esse sentir ? Nesta altura das nossas vidas, que projectos podemos iniciar juntos? Não, não duvido do que sentes, estou apenas a ser pragmática.

Agora sou eu que estou um pouco baralhada... Preciso de me afastar, de me encontrar, sozinha.

sexta-feira, janeiro 30

Sabias?...

Fotografia de José Maria Pimentel




Por vezes as letras não formam as palavras que queremos ou melhor, que devemos, pois é clássico o eterno conflito entre o Querer e Dever.



Por vezes a atracção reside nas diferenças: desejo / romance; vontade / dúvida; breve gostar / paixão; aventura / descoberta; ou simplesmente nos complementos (in)directos deste jogo de sedução em que nos inventamos...Vá-se lá saber porquê...Talvez porque ando sem rumo, porque medito demasiado, porque tento esquecer um desgosto, porque me perco e encontro nesse olhar cheio de promessas que jamais cumprirás, porque o teu colo tem sabor a paz, porque estou ávida de ternura, porque...



...Mas tento não cair na armadilha da qual sei de cor, o sabor triste de despedidas adiadas...



Até porque não sei viver de outra maneira: apaixonadamente um dia de cada vez, intensamente como se fosse o último, sem sustos, nem medos, a uma velocidade alucinante...



Por isso e por tantas outras coisas que, de se saberem se banalizam se as escrever, tento fugir neste paradoxo de só vou porque estou apaixonada e não quero apaixonar-me, assim não vou...



Percebes agora porque parece o meu discurso incoerente? Porque digo uma coisa com a boca, dizendo outra com o olhar? Porque não pareço convincente?



Não tem nada a ver com moral, pecado, sentimento de culpa...É uma defesa, a melhor que consigo para que não nos magoemos...



Claro que ainda sinto a magia de momentos especiais...claro que me atrais, claro que me apeteces. Mas talvez seja tempo de fazer o tal exercício de disciplina que sempre desprezei, eu que há pouco tempo descobri / aprendi que devemos seguir o coração...



Não sei do que preciso...



Talvez de um tempo de solidão para que me encontre,



talvez de um amigo que permaneça sem esperar nada em troca,



talvez do teu olhar quente em dias cinzentos de nevoeiro...



...Se soubesses as saudades que sinto, sem teres partido, se soubesses a falta que me fazes, mesmo quando estás...



Um beijo e muito de mim.



sexta-feira, janeiro 23

Excertos de um diário



10 de Setembro de 1986

Mãe: um pouco mais de Sol e é como se sorrisses por entre a tempestade. Quando partiste levaste todas as flores. Eu fiquei com a música e uma saudade enorme a crescer para fora do peito, de tão grande. Um beijo sempre. (Que solidão, Meu Deus!)

22 de Setembro de 1986

A saudade é uma dor física que não sei onde começa mas sei que não acaba...
O que eu não dava para te ter aqui comigo, agora a dares-me carinho...preciso tanto da tua ternura...Um beijo. Se eu pudesse ir até aí...

7 de Outubro de 1986

Minha mãe sinto que me proteges e encorajas como eu desejava que fosse físico esse teu gesto de amor...Por vezes apetece-me ir ter contigo, mas não sei se te encontraria...é que estás tão dentro de mim...Minha mãe muito querida.

20 de Outubro de 1986

Minha querida mãe: a manhã está luminosa e fria e que saudades que eu tenho das manhãs iguais em que me aquecias com o teu sorriso. Vagueio pela casa vazia, tão vazia numa solidão estrangulante de lágrimas e dor. Por vezes sento-me aqui, neste nosso recanto e fico a olhar para a porta numa espera desespero. as lágrimas recusam-se a brilhar ao Sol, preferem encher-me o peito de sal...Outras vezes (sempre) sinto-te tão perto que a minha única raiva é não poder tocar-te, ouvir-te...
O tempo vai decorrendo, mas as coisas não têm sentido, nem direcção, não têm razão de ser movimento-me apenas porque tenho que o fazer numa tentativa de libertação este tentar não pensar/lembrar/chorar-te.

Olha estou com medo do Natal. Não devias ter partido tão cedo.
Sabes, és a única pessoa que eu amo de verdade, é impossível gostar assim de mais alguém, sem reservas.

Do fundo de mim, algumas lágrimas, todas as flores do mundo e tudo de mim. Sempre.
Um beijo.


2 de Dezembro de 1986

É incrível como de repente o céu se abate sobre nós e chovem lágrimas de verdade neste tentar não lembrar que saudade Meu Deus Mãezinha sou uma menina pequena com medo do escuro e com esta dolorosa certeza que não voltas mais. É noite e o que me dói mais é essa impossibilidade de regresso este fim precoce esta mudança de mim em alguém que desconheço e lamento.
Mãezinha não sei se não te reconheço por causa das lágrimas se é por te tentar esquecer neste dia a dia sem futuro nesta dor salgada nesta fuga sem destino...


quarta-feira, janeiro 21

Passado - mais - que - perfeito




Acordo sem ti
e de repente penso que tudo foi um sonho.

Nunca existimos

ou existimos ainda e para sempre.

Depois o Sol desperta-me,

tento interiorizar
a frase de Gabriel Garcia Marquez:
"Não chores porque acabou. Sorri porque aconteceu"
e as lágrimas descem
rápidas
e quentes
numa tentativa

de desatar
o nó da garganta.

O passado teima em aparecer
em fantasmas de nevoeiro
dias cinzentos de chuva miudinha

o sufoco da traição da memória...
...é outro dia,
outro mês,
outro ano

de recomeço

de esquecimento,
de...
...tentar não lembrar...

Como estás tu?