domingo, julho 19

Passagem

Fotografia de Marta Borges




Parada.

No cimo da montanha
um pé a seguir ao outro
o abismo
atracção
voar numa libertação irreversível
como as lágrimas entornadas em dias por viver
fuga
sem regresso
sem sentido
sem reverso
a moeda de troca sem valor.

Pingo de chuva
água de mel
ardor
ferida aberta
a descida exige mais esforço
o declive perigoso
o passo mais difícil é o ultimo
(e não o primeiro)
transpor o penedo invisível
passar o rio seco
sem ponte
sem medo
e eu descalça e a terra a entrar em mim...

Misturo-me com as raízes e fico mais um pouco.

quinta-feira, julho 16

Sermão

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"Pinta-se o amor sempre menino...Usar da razão e amar são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser ? Uma vontade com afectos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor quando conquista uma alma. Porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febriciante que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar se for firme. Mas não deixará de tresvariar se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração que não houvesse fraqueza no juízo. ... Quem ama porque conhece- é amante. Quem ama porque ignora- é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito - assim no amor diminui o merecimento. Quem ignorando ofendeu - em rigor não é delinquente. Quem ignorando amou - em rigor não é amante."

Padre António Vieira