domingo, dezembro 26

Carta (a) Ver (de)



Um ano inteiro entre as florestas do meu País.

Pinhais de aromas verdes, resinados à morte, alguns, como o meu peito em ferida.
Feridas que as lembranças reabrem, quando traem a memória dos tempos em que as nêsperas eram mais doces quando descascadas por ti; dos dias em que o lusco fusco se abatia sobre nós, inesperadamente, depois de o ter(mos) esperado tanto.


Tardes mágicas, desde as manhãs em que te pressentia. E te sabia de cor. Ou quase. Porque nunca soube nada e tudo era uma surpresa constante, de espanto em espanto, mesmo os teus dedos sabedores de mim, com que me afastavas o cabelo dos olhos, onde eu ainda escondo as lágrimas, com que um dia te direi adeus.

A tua musica continua a (en)cantar-me mesmo nos dias em que não há Concertos. Concertada que está a partida (há) tanto anunciada.

Consertados que estão os telhados de cristal, por onde espreitava a tentação de ir mais além. E os teu braços de lenhador a ampararem-me esta queda de árvore que resiste à doença e quer morrer de pé. Por isso me misturo nos Pinhais, para que a morte não me encontre, entre tantas outras já moribundas.


Canto e sorrio, quando te lembras que existo algures, numa realidade paralela e impossível de se cruzar com a tua, onde as serras são da cor do teu olhar e o mar me exige não sei que afagos. Noites há, em que o lusco-fusco permanece dias seguidos, e quase que te sinto através das distância que vai daqui-aí, kilometros de ansiedade e frustração que aparta rotinas, instala solidões e vontades egoístas.

Sim, sei-te a sorrir, dum modo complacente que sempre me irrita, em que me fazes sentir uma menina tonta e romântica, sonhadora e irrealista. Complexa e até complicada para a tua paciência (que é tanta)
.

Sei-te responsável (tão atraentemente responsável) a trazeres-me de regresso a casa, numa protecção impossível de ignorar (a que chamamos amor) mesmo que seja para satisfazer o teu comodismo de não teres que te preocupar.

A morte, meu querido, continua a ser o momento em que deixarei de (te) sorrir. E de escrever o que não te digo.

Depois, quem sabe, se os anjos tocarão o piano adormecido e tu cantarás todas as canções que sei de cor, quando eu for apenas memória, decalque no teu corpo, onde escrevo poemas a tinta invisível, que tu não lês e o meu sabor é aroma das tuas manhãs, mesmo que já não te lembres quem fui.